No começo da minha adolescência, o único contato que eu tinha com o universo homossexual era através da internet. Não só por conta de sites de pornografia, mas eu também frequentava salas de bate papo onde trocava ideias com outros caras. Às vezes só conversava bobagem, claro, mas até mesmo nesses casos a troca de informações me ajudava a conhecer um pouco mais sobre minhas fantasias e sobre o que me aguardava mundo afora quando eu finalmente iniciasse minha vida sexual. E eu morria de vontade de iniciá-la, mas sabia que isso ainda demoraria um pouco para acontecer. Eu era novo, não poderia sair a procura de sexo pela cidade, como já faziam alguns colegas de escola que frequentavam prostíbulos. Gostar de homens tornava o meu caso muito mais delicado. As situações fetichistas que eu acompanhava em contos eróticos na internet não aconteciam comigo, então eu deveria esperar até ter idade ou maturidade o bastante para ir atrás daquilo que eu queria.
Por mais que as fantasias eróticas fervessem na minha imaginação, eu até conseguia me manter paciente enquanto não as realizava. Até porque, enquanto eu crescia, outras preocupações surgiram na minha vida, logicamente. Aliás, algumas preocupações muito mais importantes. Os fetiches e a curiosidade ocupavam uma zona obscura dos meus pensamentos, que eu sempre planejei manter em segredo, pois achava que ninguém precisava saber dessas coisas. Quero dizer, eu tinha vontade de experimentar sexo com homens, mas essa deveria ser uma prática absolutamente sigilosa e que não interferiria em nada na identidade e no cotidiano do Renato que todos conheciam à luz do dia, um garoto bonzinho, bem educado, de voz doce, trejeitos delicados, que não jogava futebol e era amigo de todas as meninas feias da escola. Um garoto que, apesar de todas as suspeitas, ainda sonhava em um dia ter uma namorada, se casar, ter filhos e se tornar um homem de família bem tradicional. Um homem de verdade, que quando todos olhassem, jamais imaginariam que tivesse sido, na infância e adolescência, aquele garoto patético que eu citei anteriormente. Essa era a verdade: eu me achava patético.
Quando comecei a cursar o ensino médio, minha maior expectativa era a de fazer novos amigos. Eu não agüentava mais ser aquele garoto que só andava com um grupo isolado de meninas. Eu sempre senti que tinha muito com o que contribuir para o mundo, muito o que dizer, me achava divertido, inteligente e acreditava no meu potencial para fazer alguma diferença na vida das pessoas. Mas eu não tinha a chance disso. Por algum motivo eu simplesmente não conseguia chegar até os grandes grupos, talvez por falta de desenvoltura. Ou talvez eu não me enquadrasse em nenhum perfil socialmente aceito naquela época e naquele local. Estamos falando de um colégio particular super tradicional no interiorzão do Brasil, em Goiânia, no final do século passado. Não havia pluralidade de estilos, não havia diversidade, não havia redes sociais virtuais onde os excluídos poderiam expressar suas idéias e encontrar seus semelhantes perdidos em outros cantos. Não havia para onde fugir. Ou eu seria um mauricinho bom de bola que gostasse de brincar de dar tapinha nos amigos e de ganhar as meninas com conversas superficiais ou deveria me recolher aos cantos, que foi o que eu fiz. Nunca parei para pensar que talvez eu não me encaixasse naquele meio por ser melhor, por ter uma sensibilidade mais aguçada, não tinha senso crítico para perceber isso ainda. A única coisa que eu sentia era o devastador efeito da rejeição. A sensação de que eu não era bom o bastante para fazer parte do grupo.
Recolhido aos cantos, pelo menos eu poderia fazer amizade com outros excluídos. Com os garotos nerds eu definitivamente não me identificava, então me aproximei das garotas boazinhas. Não é que eu não gostasse delas, muito pelo contrário, até porque são minhas grandes amigas até hoje, mas o fato é que eu ainda sentia falta de alguma coisa ali. Ser o único menino do grupo me incomodava bastante. Primeiro porque o fato de ser gay não anula o fato de eu ser homem e eu sentia falta de ter algum amigo com quem eu me identificasse nesse aspecto. Da mesma forma que um cara que tem um monte de irmãs provavelmente sente falta de ter um irmão, eu imagino. Mesmo que eu não gostasse de futebol e outras coisas tipicamente masculinas, ainda havia assuntos que eu me sentiria mais à vontade para tratar com um amigo homem. Nem tudo o que fazia parte de mim eu podia dividir com aquelas garotas. Eu não me identificava por completo com elas e não queria sentir que havia sido aceito ali por não ter me encaixado em nenhum outro lugar. Eu queria descobrir alguém que fosse realmente igual a mim.
Em segundo lugar, ser aceito socialmente era ainda mais complicado enquanto eu só andava com meninas, pois ser tachado como bichinha não ajudava em nada a minha reputação.
E foi a tudo isso que eu me referi quando falei que tinha preocupações mais importantes do que minha vida sexual. Eu tinha essa necessidade de me sentir aceito, mas por um bom tempo eu senti que não poderia fazer nada a respeito. Ao entrar no ensino médio, porém, eu percebi que teria a oportunidade de recomeçar minha vida. O colégio continuaria o mesmo, mas muitos alunos sairiam dali e as seis turmas de oitava série seriam reduzidas a duas de primeiro ano. Com novos colegas e menos pessoas disputando o espaço, talvez eu tivesse maior oportunidade de conquistar o meu. Então este passou a ser o meu foco principal. E a minha sexualidade passou a ser uma questão com a qual eu só lidaria em um futuro distante, a não ser que algo muito surpreendente viesse a acontecer por ali.
2 comentários:
"Estamos falando de um colégio particular super tradicional no interiorzão do Brasil, em Goiânia, no final do século passado. Não havia pluralidade de estilos, não havia diversidade, não havia redes sociais virtuais onde os excluídos poderiam expressar suas idéias e encontrar seus semelhantes perdidos em outros cantos. Não havia para onde fugir". Puuts esses colegios são podres, sério eu não entendia porque estudar num colegio de freiras que toda hora havia violencia e droga e as lindinha (freiras) nem desciam pra fazer nada ,so ganhavam. Ai vem aquela palhaçada de religião so que o céu ta caindo nesses lugares. Tambem fui de escola particular grande onde tinha meu grupo de excluidos porque não decidimos fazer parte de patricinhas e não eramos ricas, ah e decidimos não ser putas aos 13 e 14...Mas lembro que os homens na questão comportamento pareciam ter 6 anos de idade e nisso acho que vc sofreu né? Não é todo mundo inteligente que é aceito por playboyzinhos mongois. Outra coisa é que essas escolas não ensinam direito sobre a realidade do mundo e diversidade cultural, sexual, socio-ecônomica, pelo contrario, colocam professores que disseminam ideias preconceituosas ali. Mas emfim, Goiania é ainda muito catolica e por isso tem essas coisas ridiculas. Obs: Já tive ideias catolicas e me considerava uma, isso não me ajudava so piorava a visão da realidade.
Menine, vc escreve muito bem, não falo isso para qualquer pessoa. Sabe se expressar sem barreiras e acentuações de valores que deixam os textos infantis e melodramáticos. Blog é isso aí, falar de si de forma ampla sem chamar atenção para as picuinhas da própria vida miserável que ninguém quer saber...
Eu também queria escrever blogs, mas não tenho saco e liberdade pra isso, e certeza que só iria sair bafo, hahaha.
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