sexta-feira, 5 de novembro de 2010

Rapsódia Goiana

Sabe, apesar de todas as situações inusitadas que eu já vivi, ainda me choco com certas surpresas.

Já comentei algumas vezes que aos dezoito anos tive o meu primeiro namorado, certo? Mas não entrei em detalhes. Pois bem, nós nos conhecemos através de um amigo em comum e foi amor à primeira vista. Quero dizer, eu adoro usar exageros românticos e sei que as pessoas um pouco mais racionais diriam que não foi exatamente amor, mas a mim não interessa o nome que se dê. O fato é que, assim que o Tobias nos apresentou,  tivemos uma troca de olhar que mexeu tanto comigo que fiquei até sem graça! Cumprimentei o garoto com educação, mas desviei o olhar assim que pude, de tanto que me senti desarmado.
Estávamos na porta de um teatro e entramos para assistir a uma peça. Mais tarde, fomos até um bar onde o Tobias encontrou algumas amigas lésbicas com quem nos sentamos e pôde se entreter com elas enquanto o tal garoto e eu finalmente nos sentimos mais à vontade para nos conhecermos melhor. Ficamos isolados na ponta da mesa e conversamos por um tempão. Seu nome era Adam (bíblico) e ele havia acabado de voltar da Suíça, onde passou dois anos. Lindo. Tivemos um bom entrosamento e era óbvio o quanto nos sentíamos atraídos um pelo outro.
Naquele dia, a propósito, acontecia a parada do orgulho gay na cidade, próxima ao bar onde estávamos. Quando a multidão desceu uma avenida ali na esquina, resolvemos ir atrás. E foi ali, a céu aberto, que o Adam e eu demos nosso primeiro beijo. E muitos outros. Quando a noite parecia chegar ao fim, soubemos de outra festa que começaria em uma chácara. O Tobias não se animou, então o deixamos para trás e fomos de carona com outra amiga que encontrei ali. Adam e eu ficamos juntos durante toda a festa e parecia que já nos conhecíamos havia muito tempo, foi super romântico. Para ir embora, pegamos carona com um casal das lésbicas amigas do Tobias, que ficaram encantadas conosco, e combinamos de ir, os dois casais, ao cinema depois, para assistir a X-Men: o confronto final.
Bom, não cumprimos a promessa com as lésbicas, mas nós dois, sim, assistimos ao filme em nosso primeiro encontro, depois de almoçarmos juntos, três dias depois. Era a primeira vez que eu saía com um garoto por quem eu me sentia tão interessado e que demonstrava sentir o mesmo por mim. Minhas poucas experiências anteriores se resumiram a mal entendidos e paixõezinhas platônicas, mas desta vez parecia real.


Mais três dias se passaram e, num sábado, fomos a uma balada com o Tobias. Como o Adam morava longe e não teria como ir para casa de madrugada, propus que ele dormisse em minha, aproveitando que meus pais haviam viajado. Ele topou, mas eu confesso que fiquei um pouco apreensivo, com medo de que a situação nos pressionasse a fazer sexo. Havia pouco tempo que nos conhecíamos e eu ainda não sentia tesão por ele... Sem falar que eu ainda... Nunca havia feito sexo na vida.

Quando chegamos ao meu quarto, tentei fingir naturalidade e perguntei se ele queria privacidade para se trocar,  mas ele disse que não precisava. Fechei a porta e me surpreendi comigo mesmo. Me senti completamente à vontade! E não só isso. Enquanto nós dois nos despíamos, tive aquela sensação inédita. Mistura de desejo com paixão, coisas que, até então, para mim, viviam separadas. Foi inevitável. Primeiros toques, primeiras muitas coisas. Não chegamos a transar de fato, mas foi um momento incrível que eu guardo na memória como minha primeira noite de amor.

Na quarta-feira da semana seguinte, decidimos que nossa relação já podia ser chamada de namoro. Eu estava tão feliz, mas tão feliz, acho que mais do que nunca até então! Finalmente, após toda uma adolescência de desilusões, encontrei alguém legal que também gostasse de mim e me desse valor. E alguém que eu já poderia chamar de meu namorado.
Dois dias depois, porém, ele precisou viajar. Foi passar o final de semana com sua família numa cidade do interior e só voltaria no domingo. Na mesma época, meus pais programaram uma viagem e eu resolvi ir junto, já que eu não iria mesmo ver o Adam por aqueles dias e também para evitar reclamações de que eu não passava mais tempo com minha família. O problema é que eles queriam ficar até o outro domingo e eu não aguentaria passar mais um final de semana longe do meu namorado, então me programei para voltar antes, sozinho, na sexta-feira. Assim, também poderíamos aproveitar para ter a casa só para nós de novo. Ao longo da semana a viajem foi bem legal, mas eu pensava no Adam o tempo todo e sempre ligava para matar as saudades. Na sexta, então, a contragosto de todos os que estavam comigo, peguei um ônibus e voltei para casa.
Quando liguei para o Adam, ele disse estar muito cansado para sair, então só nos encontramos mesmo no dia seguinte, sábado. Fomos a uma balada e depois dormimos juntos de novo. Não foi tão bom quanto a primeira vez, mas foi bom. Na manhã de domingo ele foi embora e sumiu por uns dois dias. Quando liguei, na segunda à noite, ele não atendeu. Na quarta ele me ligou para saber se podíamos almoçar juntos, mas eu teria um compromisso logo mais. Ele disse então que depois marcaríamos algo, pois ele queria conversar. No dia seguinte eu liguei e ele é quem tinha compromisso, mas para não me deixar curioso, resolveu falar logo: aquele não era um bom momento para ele ter um relacionamento. Disse que precisava se concentrar nos estudos, resolver sua vida e que, além disso, era muito difícil namorar enquanto nenhum de nós dois tinha carro e nem trabalhava. Ingenuamente, comentei que poderíamos dar um tempo, ao que ele respondeu que, claro, futuramente, quem sabe? Disse ainda que, além de tudo, não bateu "aquela coisa" e que nossa relação estava mais para amizade.

A ficha não caiu direito, sabe? Eu não acreditava realmente que aquela história acabaria ali. O sentimento que eu tinha por ele era tão forte e, se ele sentia o mesmo, não teria deixado de sentir assim de uma hora para a outra. Então talvez ele só precisasse de um tempo mesmo, para sentir minha falta. Entretanto, pouco tempo depois ele me chamou para ir ao cinema assistir Zuzu Angel e chamou o Tobias também, que não foi. Fomos só nós dois e então percebi o quanto ele já estava à vontade ao me tratar só como amigo. Comentou inclusive que havia ficado com outro garoto dias antes. Tentei agir com naturalidade e continuamos a nos falar por telefone de vez em quando, sempre como amigos, até que começou a doer em mim.

Já havia se passado três semanas desde que terminamos quando eu decidi que precisava dizer a ele o que eu sentia. Talvez se ele soubesse que eu ainda gostava dele, concordasse reatar o namoro, pensei. Então nesse dia eu saí da faculdade às dez e meia da manhã e peguei um ônibus até o cursinho onde ele estudava (o mesmo no qual me matriculei no início deste ano, pensa se não me trouxe lembranças). Quando ele saiu da aula, ficou surpreso ao me encontrar ali fora e pediu que eu o acompanhasse até o ponto de ônibus, pois ele estava com um pouco de pressa. O que sucedeu essa cena foi um longo dramalhão que eu prefiro resumir da seguinte forma: como eu não conseguia falar logo o que queria, acabei entrando no ônibus junto com ele e fomos até a rodoviária. No caminho, eu disse que sentia sua falta e o queria de volta como namorado. Ele disse que não queria voltar, pois só gostava de mim como amigo. Falei que eu não conseguiria ser amigo, pois gostava muito dele e ele disse que, então, era melhor ficarmos um tempo sem nos ver. Quando ele estava na fila de embarque da rodoviária para pegar outro ônibus que o levaria a outra cidade, ao perceber que fiquei abatido, ele resolveu me dar conselhos, como dizer para eu procurar pensar em outras coisas e me concentrar nos estudos, então dei as costas, o deixei falando sozinho e fui para casa chorar no meu quarto. Nunca mais nos vimos.

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Quatro anos se passaram e eu conheci o Ricardo. Pensava que nunca mais iria me apaixonar de novo, mas me surpreendi. Desde o começo, comentei por aí que eu sentia ter voltado aos dezoito anos de idade. Me segurei um pouco no começo, não queria confiar. Mas confiei. Após quatro meses de namoro, na sexta-feira passada ele disse que queria dar um tempo. Eu já não sou mais tão ingênuo e não acredito nessa conversa. Não iria ficar esperando. Deixei bem claro que, por mim, continuaríamos juntos. Ele não quis.
Antes de nos despedirmos, ele perguntou se ainda iríamos juntos ao espetáculo de dança do dia seguinte, para o qual compramos ingressos com antecedência. Eu respondi que sim, mas voltei para casa arrasado.

Quando cheguei, não conseguiria dormir pensando nisso, então liguei o computador para me distrair um pouco e abri o messenger. Qual não foi a minha surpresa? De repente surge uma janela de conversa com mensagens que alguém deixou para mim enquanto eu estava off-line. Aliás, as mensagens foram deixadas poucas horas antes. Pelo Adam.


"E aí, Renato, tudo bem? Mande notícias! Você sumiu... Fique com Deus e boa noite."


3 comentários:

panda disse...

Amo essa musica e já ouvi em momentos de raiva e tristeza que queria dizer exatamente o que a musica diz, Queen é musical! O seu texto ficou ótimo!Fechando assim então... E esquisito como padrões se repetem na vida ne?Mas se e um circulo ou Goiania...sei la Goiania rhapsody kkkkkk. Ah vc viu o Vocal Adrenaline fazendo essa musica no final da 1 temporada do Glee? Achei incrivel! Acho que e legal vc pegar essa energia e escrever mesmo, isso e sublimação! kkkk

Renato disse...

Menina, esse texto demorou pra sair, viu!? Tive que sentar umas três vezes pra continuar e ainda sempre mudava alguma coisa. Ontem demorei quase o expediente todo pra terminá-lo, kkkk...
Queen é maravilhoso, né? Eu vi sim o season finale de Glee e achei que ficou ótimo, mas ainda prefiro a versão original.

Goiano disse...

humfp
eu decidi me manifestar depois de dias que li o texto
pq fiquei com odio do seu ex que é uma cara insensivel ... (mas me parece lindo, ou seja, uma paixao bomba) e com raiva do universo que ressuscita os mortos em momentos de fragilidade...
cara
fica bem
bjos