sexta-feira, 26 de abril de 2019

Querido diário, eu estou exausto. Como posso explicar o longo processo que, no passar de anos, me trouxe a este estado atual? Eu poderia começar desde o início, o dia em que fui concebido, porque eu poderia. Há muito o que falar inclusive sobre o período de gestação, quando eu ainda estava no útero. Andei fazendo umas terapias de regressão e me lembrei de coisas muito bonitas. Mas com a cabeça cansada do jeito que estou, não consigo me concentrar para contar uma história tão longa com todos os detalhes que eu gostaria de incluir, embora fazer isso seja um grande desejo meu. Tomara que um dia eu consiga, mas hoje, não.

Querido diário, em 2009 eu me formei na faculdade e fiquei absurdamente perdido na vida, sem saber o que fazer a para que lado ir. Na infância eu acreditava que o enredo da vida se desenvolveria sozinho e eu seria levado pela vontade do autor, que eu iria viver a minha história sem me deparar com conflitos internos e sem precisar tomar nenhuma decisão. Agora me pergunto se essa é a ignorância normal de uma criança ou se eu, de fato, era mais burro do que os outros. O fato é que aos dezessete anos, ao terminar o trajeto comum imposto a todos - o colegial, eu não parei para pensar em quem eu era até ali, quem eu gostaria de ser no futuro, o que eu precisava fazer para atingir esse objetivo, eu não pensei em nada. Entre as opções que me foram apresentadas, escolhi uma faculdade qualquer e assim começou a jornada da minha vida adulta.

Foi difícil me ambientar. Foi difícil compreender sozinho algumas regras de sobrevivência e de convivência também, foi difícil assimilar quais eram minhas novas obrigações a partir dali. É um processo semelhante ao da primeira infância, talvez, quando o bebê começa a observar o mundo, ter consciência de que ele existe, de que está num determinado espaço, inserido em um determinado grupo no qual cada indivíduo tem uma função. Eu não sabia a minha função.E às vezes sinto que demorei demais para aprender as coisas! Eu sei que a maioria das pessoas não fica raciocinando em cima desses assuntos, ninguém tem o hábito de esquematizar a realidade dessa forma, mas foi o que eu precisei fazer para explicar por que eu demoro tanto para chegar a certos estágios da vida. Sei que sou inteligente por conseguir analisar essas coisas, mas me sinto um idiota por ter demorado tanto tempo para despertar. Embora eu hoje me considere mais desperto que a maioria, com um intelecto bem arrojado, ainda não construí nada de concreto e relevante na minha vida. Eu sou um zé ninguém. Pobre, de poucos amigos, vida amorosa um desastre, péssimo para me relacionar com pessoas, viciado em psicotrópicos, enfim, até o momento um fracasso.

Reflexões a parte, vamos voltar à minha história de vida. Durante a faculdade, eu tive um emprego de telefonista que eu sentia que era pouco pra mim, então pedi demissão quando estava perto de me formar. Tentei conseguir algum trabalho na profissão em que me formei e não tive sucesso, até que, seis meses depois de formado, eu resolvi me dedicar a algo que eu realmente gostava: teatro. Não foi exatamente uma novidade, pois comecei a fazer oficinas ainda durante a faculdade, cheguei a integrar uma companhia e me apresentei algumas vezes com eles, mas as dificuldades comuns a todo artista, incluindo a falta de apoio da minha família, me fez parar por um tempo. Em meados de 2009, então, me reencontrei com aquele grupo e montamos juntos uma nova peça. Atuar me fazia me sentir vivo, mas algumas dificuldades surgiram no processo. Me faltava estudo e eu não conseguia desempenhar um trabalho de boa qualidade. Minha relação com o diretor do grupo se desgastou, a amizade se perdeu e aquele trabalho virou uma dor de cabeça, então eu caí fora. Percebi que, se eu quisesse realmente ser um ator profissional, precisaria estudar. Mas com que dinheiro? Meu pai já havia pagado uma faculdade pra mim, eu não queria mais pedir nada a ele, mas também não conseguia nenhum emprego. A única solução que parecia viável para mim, com base em pessoas que conheci aqui e ali, era estudar para concursos públicos. E foi a isso que me dediquei no primeiro semestre de 2010.

Após seis meses de estudo, fui aprovado em dois concursos: um de um órgão estadual e outro de um banco público federal. Isso dá início a uma fase de muitas histórias que contarei em outras ocasiões. Um fato importante é que, em 2014, trabalhando no banco federal, eu consegui transferência e me mudei para São Paulo. Isso deu abertura para mais uma série de histórias, mas agora vamos cortar para junho de 2018. Eu terminei o quinto e penúltimo módulo do curso de teatro de uma das escolas de atores mais renomadas do país. Eu já havia aprendido muito, melhorado muito, mas depois de montarmos e apresentarmos a peça daquele módulo, eu percebi que eu podia ter feito melhor. Eu podia estar fazendo muito mais. O que me atrapalhava era justamente o emprego no banco, que, porém, era o que garantia o meu sustento. Chegou o momento de enfim tomar uma grande decisão. Eu fiz um plano. Decidi que não iria fazer o módulo final do curso logo em seguida. Decidi trancar o curso e deixar o emprego me consumir de segunda a sexta até o começo de 2019, quando eu já teria conseguido juntar algum dinheiro e, então, pediria minhas contas. E foi o que eu fiz. Agora já estou sem trabalhar há duas semanas e me dedicando exclusivamente ao teatro.

Há mais coisas que eu quero fazer também. Coisas que eu preciso fazer. Agora que tenho os dias livres, eu posso. Mas nessas duas semanas eu ainda não comecei. Talvez precise de um tempo de descanso. Esqueci de comentar que o emprego no banco não estava nada fácil ultimamente. Eu lidava diretamente com o público, o público mais imbecil que eu já vi na vida e eu ainda precisava representar uma empresa que consegue ser tão imbecil quanto seu próprio público. Era exaustivo tanto fisicamente quanto mentalmente. Houve dias em que eu estive à beira de um colapso nervoso sério, por pouco não joguei coisas pelos ares. A única coisa que manteve minha sanidade mental nos últimos meses foi a certeza de que aquela rotina já estava com os dias contados, eu só precisava continuar sendo forte, aguentar por mais um tempo. E agora aquele tempo já era. E eu estou basicamente livre. Mas tem mais uma jornada difícil pra começar e por isso acho justo que eu tire algumas semanas pra descansar. Porque como se não bastasse isso tudo, na vida afetiva também tive uns contratempos muito desagradáveis. Conto sobre eles depois, mas foram feios. As pessoas estão a cada dia piores.

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