Acho que a época mais difícil da minha vida foi quando eu ainda era criança e todos os meus colegas de escola se tornaram adolescentes. Acho que aquela diretora, aquele professor e meus pais podiam ter pensado nisso quando decidiram me fazer pular um ano da pré-escola por eu já ter aprendido a ler antes dos coleguinhas. Ou talvez isso não teria feito diferença nenhuma, porque não foi só a questão da idade que me fez ser massacrado na pré-adolescência. Eu só sei que quando eu estava na quinta série da escola (o que hoje seria chamado de sexto ano e que mais antigamente era o primeiro ano ginasial) eu ainda era uma criança livre, que conversava com quem não conhecia, que fazia brincadeiras na frente de qualquer um e que... Bom, na verdade eu já havia começado a sofrer um pouco antes disso, a me magoar, me sentir esquecido pelas pessoas de quem eu gostava e cada vez mais me sentir um peixe fora do aquário. Ou um peixe no aquário errado. Uma figura que não se encaixava naquele cenário. Sim, eu me lembro de momentos de melancolia em que eu refletia sobre essas coisas quando eu ainda não tinha nem dez anos de idade. Mas aos dez eu comecei a quinta série e a escola onde eu estudava (uma das mais tradicionais de Goiânia) recebeu uma enorme leva de novos alunos, então as turmas foram todas reformuladas e eu ganhei muitos colegas novos. Naquele ano, a discrepância entre eu e o grupo se tornou mais evidente. Você deve estar se perguntando que discrepância era essa. Bom, a sociedade em que eu cresci era muito bem definida em relação aos papéis que cada individuo deveria desempenhar, aparentemente. Meninos deveriam jogar bola e fazer coisas de menino, enquanto meninas estavam liberadas para brincar de tudo o que a imaginação permitisse. Bom, eu sempre fui um menino muito imaginativo. Eu passei os quatro primeiros anos da minha vida morando num pequeno condomínio onde as outras crianças eram todas meninas, e com elas eu brincava de casinha, de escolinha, de tudo o que a gente inventasse - exceto bonecas, porque eu não podia brincar de bonecas. A vontade era enorme e às vezes eu até pegava em uma ou outra, mas logo vinham os irmãos mais velhos das minhas vizinhas me chamarem de bicha. E se eu estivesse fazendo qualquer outra coisa, também vinham me chamar de bicha e eu não sabia por que justo eu fui pregado pra Cristo. Mas não era sobre isso que estávamos falando, eu só queria dizer que a minha imaginação me fazia querer brincar de coisas que os outros meninos não se interessavam, e não falo só de casinha ou escolinha, eu brincava de super herói também, adorava os Power Rangers e gostava de imitá-los, criar histórias na minha cabeça e interpretar personagens. Tive a sorte de arranjar pelo menos um amigo para brincar dessas coisas no começo do ensino fundamental. Depois outros dois se juntaram a nós e tivemos esse grupo até a quarta série, quando eles começaram a se enturmar mais com os meninos do futebol e eu fui começando a ficar sozinho. Na quinta série, dois deles mudaram de escola e o outro, que foi pra outra turma, já nem era mais tão meu amigo. Só sobrou a Camila, que também era minha amiga desde a primeira série, mas não brincava com a gente, era meio que uma amizade que eu tinha à parte. Engraçado, agora eu nem lembro bem de como era isso e como a Camila e eu nos tornamos tão amigos. Mas enfim, o legal é que somos amigos até hoje, embora nos vejamos pouco. Então na quinta série ela era a única amiga que eu tinha na minha turma, depois me aproximei das outras meninas que também eram amigas dela, mas elas eram o grupo das meninas mais reservadas, não eram parte da chamada rodinha principal, entende? A turma dos populares. Esses eram os meninos do futebol e umas meninas mais falantes que eu não sei bem porque não eram muito legais. Algumas eram até agressivas. Estas, junto à maioria dos meninos do futebol, foram os que não foram com a minha cara na quinta série. Talvez eu ainda fosse criança demais, livre demais, talvez até fosse um pentelho. O caso é que eles achavam minhas brincadeiras idiotas, me achavam idiota e foram as primeiras pessoas a deixar explicitamente claro para mim que eu não era aceito no meio. Tudo o que eu fazia ou falava era motivo para deboche. Eu comecei a me recolher para dentro de mim mesmo e a me isolar no espaço. Meu pai começou a perguntar por que eu estava sempre sozinho quando ele ia me buscar na escola. E eu não sabia o que responder e ainda sentia vergonha de ouvir a pergunta. Um dia minha mãe perguntou se eu me importaria se ela fosse até a escola conversar com a supervisora pedagógica sobre mim. Eu respondi que não, então na escola essa supervisora (que fora minha querida professora na primeira série) me chamou em sua sala para conversar comigo antes de receber a minha mãe. Ela queria saber como eu estava me sentindo na escola e eu falei que não gostava da minha turma, que meus amigos antigos não estudavam mais lá, e que os colegas novos eram agressivos. Ela perguntou se eu gostaria de mudar de turma no ano seguinte e eu respondi que sim, inclusive apontei para qual turma eu gostaria de ir. Comecei a sexta série cheio de expectativas. Felizmente a turma nova não era agressiva igual à anterior, mas mesmo assim eu não consegui chegar e me enturmar. Percebi que as pessoas mais comunicativas, os tais populares, por algum motivo me intimidavam. Não que eles fizessem isso de propósito, mas eu me sentia intimidado. Mais uma vez, me aproximei daquelas pessoas que pareciam também estar nas beiradas ou fora do círculo social. Era estranho. Eu não conseguia me identificar com praticamente ninguém ali. Eu não conseguia ser eu. Eu acho que eu nem sabia quem eu era. Hoje percebo que o que mais me tolhia era a ideia de que havia um jeito certo de ser, um perfil no qual eu deveria me encaixar (o dos meninos que jogavam bola). Talvez eu pudesse simplesmente assumir quem eu era, igual a tantos freaks fazem hoje em dia. Talvez a culpa tenha sido minha, por não ter me permitido isso. Ou talvez eu já soubesse que freaks não seriam bem aceitos naquele meio. É, aquela época era outra. Havia uma certa pressão para se encaixar no modelo padrão. E como eu não conseguia me encaixar, mantinha o meu verdadeiro eu sufocado. E por isso fui sempre tão introspectivo a partir dessa época. Por sorte eu consegui fazer alguns amigos, nessa turma nova eu conheci o João Luiz e depois o apresentei para a Camila e as outras meninas da minha turma antiga, nós nos encontrávamos no recreio e após a aula. Foi a turma que eu encontrei que melhor me recebeu, mas o fato de ter sido rejeitado em tantas situações deixou marcas em mim. Dia desses, falando com minha analista sobre a minha atual aversão a conhecer pessoas e total falta de interesse por sexo e relacionamentos, uma campainha tocou na minha cabeça e resgatou todas essas lembranças que talvez tenham tido alguma influência nisso. Hoje as pessoas dizem que sou bonito, que devo ter muitos pretendentes, recebo mais olhares nas ruas, mas eu fujo das pessoas. Eu tenho medo de me aproximar de qualquer um, sinto que sou de outra espécie, que preciso me proteger, porque quando alguém me conhecer de verdade, não vai ser capaz de me amar, não vai me entender, não vai me aceitar. Eventualmente eu conheço algumas pessoas que aceitam a minha loucura, isso é maravilhoso. Eu sou muito grato a cada amigo que tenho. Mas já tive também a ilusão de ser aceito por alguém, começar a amá-lo e depois ser abandonado. É muito difícil me recuperar. É mais fácil me proteger. Mas também é difícil me sentir tão inábil socialmente às vezes. Inclusive profissionalmente, essa falta de traquejo pode me prejudicar muito. Dá medo. Mas espero continuar fazendo o que fiz tantas vezes na vida, vencer obstáculos.
Nenhum comentário:
Postar um comentário