Quanto maior o meu conhecimento sobre qual deve ser o resultado final de um trabalho criativo, maior o meu bloqueio para concretizá-lo. Quero dizer, quanto maior o meu senso crítico, quanto mais eu tenho capacidade de avaliar o que é um trabalho realmente bem feito, menos capaz eu me sinto de produzir algo à altura do que eu considero perfeito. E eu não me permito produzir nada que seja qualquer coisa menos que perfeito.
Isso foi muito perceptível pra mim durante o meu curso de publicidade e propaganda. No segundo semestre, quando começávamos a aprender o básico do básico e fazíamos trabalhos despretensiosos, nos quais só precisávamos deixar a criatividade fluir, lembro que cheguei a produzir muita coisa bacana. Nada perfeito, claro, a maioria com deficiências graves se fossem avaliados os detalhes técnicos de uma boa campanha de comunicação dentro de um contexto de estratégia de marketing. Mas acho que os professores, naquela época, poderiam ver os meus trabalhos e pensar até que eu era um aluno promissor. Coitados.
Não demorou nem um ano para que eu começasse a ter aulas de criação publicitária e perceber que, por não serem perfeitos, os trabalhos que eu fizera antes eram completamente inválidos. Do ponto de vista técnico, eu havia cometido erros crassos, dantescos!!! E dali em diante, todos os meus outros trabalhos foram lastimáveis, sem contar que muitos deles eu deixei de fazer. No quarto semestre do curso, eu quase fui reprovado em uma matéria simplesmente porque não fiz nenhum trabalho que o professor havia pedido. Preguiça? Falta de tempo? Não. Eu estava bloqueado. O conhecimento que eu adquiria ao longo do curso tornou meu senso crítico ainda mais aguçado, me permitindo julgar com mais propriedade as produções publicitárias que eu via por aí, principalmente aquelas que eu considerava verdadeiras merdas. E isso significava que eu poderia fazer melhor? De jeito nenhum. Meu senso crítico era tão forte que eu sabia que, para conseguir realizar um trabalho realmente perfeito, eu precisaria nascer de novo. Não que eu não soubesse o que é bom, mas meu cérebro trava na hora de executar. Pifa.
E por que estou falando sobre isso hoje, mais de três anos depois da minha formatura? Por que foi esse mesmo tipo de bloqueio que me fez deixar este blog abandonado. É essa mesma sensação que hoje me impede de escrever tanto quando eu escrevia antigamente, quando fazia isso na inocência, me preocupando mais em expor minhas ideias do que na qualidade técnica do texto produzido.
Então não seria melhor se eu tivesse continuado sem ter o senso crítico muito aguçado, para poder continuar escrevendo da forma que eu escrevia antigamente, sem grandes pretensões e em maior volume? Talvez não. Acho que não. Se eu senti necessidade de melhorar, é porque ainda não estava bom. Ou melhor, bom poderia até estar, mas eu preciso de que esteja excelente! Impecável. Eu preciso escrever algo que seja maravilhoso, coerente, bem organizado, bem estruturado, com continuidade e desfecho, algo que possa ser publicado um dia, se possível hoje. Um livro, eu queria poder escrever um livro. Me desculpem, mas por mais que eu aprecie a atenção que vários amigos e leitores têm ou tinham com o meu blog, eu sentia necessidade de um pouco mais que isso. Eu tenho tanta coisa que eu gostaria de gritar pro mundo inteiro ouvir... Mas para eu conseguir produzir algo que possa vir a ser publicado, não bastaria que estivesse bom. Bons escritores estão por toda parte, igual aos bons atores e bons artistas de modo geral, tentando e tentando conseguir um lugar ao sol e quase sempre falhando.
2 comentários:
Re,
Não se cobre tanto. Deixe se levar para inspiração e pela criatividade. Eu te entendo bem, pois quando termino de escrever um post nunca acho que esteja bom de verdade. Sempre questiono a qualidade do meu texto. Mas uma coisa curiosa acontece quando eu leio um texto que escrevi há muito tempo. Há muita coisa que acho incrível e que até duvido que tenha sido eu que escrevi!
O distanciamento é muito bom para a gente conseguir apreciar corretamente uma produção nossa.
Beijos e tente ficar mais relaxado, sem tantas cobranças.
É a velha questão de ser "crítico" ou "criador" de algo. No seu caso, quiçá seu lugar seja a crítica (e você é ótimo em suas análises)... Deixe fluir.
Postar um comentário