domingo, 26 de maio de 2013

De dois anos pra cá

Bom, hora de retomar aquela história que eu vinha contando e tentar terminá-la de uma vez por todas para manter os meus leitores a par de tudo o que aconteceu.
No mesmo dia em que eu cheguei de São Paulo, falei com o Tony pela internet e comentei sobre o distanciamento dele na última noite. Sem rodeios - o que achei muito digno de respeito - ele logo admitiu que não era só impressão minha e me explicou exatamente os motivos que o levaram a repensar o que sentia por mim. Em suma, ele não sentia mais nada.
Tivemos essa conversa quando eu estava no meu trabalho. Eu havia chegado a Goiânia por volta do meio-dia, meu pai me buscou no aeroporto e me levou para casa, onde eu almocei e depois iria trabalhar no segundo período do dia. O único porém foi que eu fiquei sabendo que minha mãe havia pegado o meu carro emprestado porque o dela estava na oficina, então tive que ir de ônibus. Cheguei ao trabalho, liguei o computador e conversei com ele. Passei o resto do dia um tanto decepcionado, mas sem expressar muita emoção, apesar de um momento em que um colega de outro departamento passou pela minha sala, puxou alguma conversa rápida e depois perguntou se eu estava de mau humor. Falei que sim, mas por causa de alguns problemas pessoais e ele não quis invadir. Ao fim do expediente, peguei o ônibus de volta, desci no ponto há dois quarteirões de casa e, enquanto caminhava, lembrei de tudo o que aconteceu naquele dia pela manhã até pouco depois do almoço, que já parecia ter sido há muito mais tempo... Pensei comigo mesmo apenas "que pena". Era como se eu não quisesse dar muita importância.
Cheguei ao meu apartamento e não havia mais ninguém ali, só os meus cachorros. Me deitei no sofá da sala, exausto. Fiquei pensando, pensando... Então resolvi deixar a emoção finalmente aflorar. Desatei um choro que começou rasgando a minha garganta sem fazer nenhum som, mas que depois se transformou em um berro longo, seguido por uma série de soluços e gemidos. Eu esgoelei de tanto chorar. Era uma dor tão forte no peito, um sentimento de rejeição, de decepção... Tudo estava tão diferente até a semana anterior, nós dizíamos coisas tão bonitas um para o outro, ele estava tão ansioso pela minha visita, parecia tão interessado... E de repente aquilo tudo acabou. Eu me senti enganado. E o choro me cortava em cacos, me jogava no chão, arrastava pro quarto e me levava a contestar toda a minha vida. Eu cheguei a ter vontade de morrer ali mesmo. Overdramático, eu sei. Mas eu simplesmente não esperava sentir aquilo de novo, naquela altura da vida. Sofrer por amor era coisa da minha adolescência, quando eu ainda nem sequer sabia quem eu era. Naquele momento eu já havia tido três relacionamentos sérios, era funcionário público, não estava preparado para, de repente, me sentir à mercê da reprovação de outra pessoa, me sentir rejeitado.
Foi então que eu reparei que tudo na minha vida estava errado. Parecia certo, mas estava errado. Meu emprego naquele órgão público, na verdade, era uma bosta. Eu não fazia nada o dia inteiro, não tinha o que compartilhar sobre a minha rotina, não tinha assunto com ninguém. Lembrei das conversas que eu tinha com o Tony pela internet, antes de eu ir visitá-lo. Eram vazias! E eu já percebia, mas tentava disfarçar. Tentava disfarçar a minha falta de conteúdo, a falta de graça da minha vida. A paixão que eu senti talvez nem fosse por conta de quem ele era, mas sim por perceber que, ao contrário de mim, ele tinha uma identidade. A vida dele acontecia, ele tinha objetivos, compromissos, opiniões. Coisas das quais eu precisava para me sentir vivo. Eu queria estar no lugar dele e a forma mais eficaz de me aproximar disso seria namorar com ele. Identificar essa problemática foi importante, mas não diminuiu a minha dor.
Como já contei por aqui, fiquei miserável por um bom tempo, praticamente inválido, mas depois, aos poucos, comecei a me reerguer.
No trabalho, comecei a interagir mais com os colegas e passamos a aproveitar melhor as horas de ócios que tínhamos ali. Nos encontrávamos para conversar, lanchar, jogar jogos, enfim... Percebi que eu tinha muito em comum com aquele pessoal e nós dávamos bastante risadas juntos.
Na vida afetiva, voltei a ficar com o Lucas. Eu não estava cem por cento disponível, claro, mas ele sabia disso e me aceitava com todas as minhas limitações e todo o meu jeito estranho de ser. Ele também ficava com outros, não tínhamos nada sério, nenhum compromisso, mas gostávamos de nos ver e de ficar juntos. Ele não sabe, talvez não seja capaz de entender, mas esse relacionamento casual, que no fim pode ter parecido não dar em nada, me fez um bem danado naquele período. 
Houve outros ficantes também, nada sério, apenas diversão. Tive o meu contato com drogas, que contei aqui, mas que não me causou nenhum dano grave, digo até que foi um episódio muito positivo para o meu autoconhecimento. E não foi nada tão pesado assim, foi só maconha. Acho até que demorei demais para experimentar! Não é qualquer um que chega limpo aos vinte e quatro anos.
Na terapia, tive muita ajuda da Lúcia no processo que eu chamei de reconstrução da minha identidade. O exemplo da Joana Machado, que na época participou da Fazenda 4, também me ajudou muito a entender o quanto era importante eu saber me posicionar e me impor nada vida. Levei ao extremo algumas vezes, brigando no trânsito principalmente, mas a sensação de finalmente ser alguém era ótima.
Enfim, no segundo semestre de 2011 eu já estava praticamente recomposto, mas dois acontecimentos que ainda estavam por vir seriam fundamentais para eu chegar aonde estou hoje.

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