"Meu nome é trabalho e meu sobrenome é serviço", disse a minha chefe na hora de voltar ao expediente depois de um almoço de dez minutos. Acho que a intenção era nos motivar a ser como ela, adoradora do trabalho. Ela consegue fazer mil coisas ao mesmo tempo, fala ao telefone enquanto digita, pesquisa, assina, carimba, conversa com a gente e com o cliente à sua frente. Suas falas são rápidas e quando ela te pergunta algo, diz "ahã" antes mesmo de você respondê-la. Ela só é obrigada a cumprir oito horas de serviço, mas chega na empresa às oito da manhã e só sai às oito da noite. Uma profissional exemplar.
Quem não adoraria ser como ela? Quem?? Eu. Os deuses do capitalismo que me perdoem, mas existe uma série de coisas mais importantes para mim do que a minha vida profissional. Não é que eu não goste do que eu faço, de forma alguma. E não é que eu seja preguiçoso, muito menos! Mas convenhamos, a vida requer equilíbrio. Eu sei quita gente acha bonito se dizer workahoolic, mas isso não é e nuca foi o meu ideal de vida.
Em primeiro lugar na minha lista de prioridades está a minha saúde e é justamente isso o que eu mais precisaria negligenciar se quisesse ser como os meus chefes. Essa que citei, por exemplo, adora segurar o telefone com o ombro enquanto usa o computador. O outro, ainda superior a ela, tem uma das piores posturas que já vi na vida, completamente curvado pra frente. E eu, queridos, tenho escoliose desde os catorze anos de idade, usei colete ortopédico durante a adolescência (inclusive na escola, imaginem que beleza passar por isso naquela idade) e hoje faço sessões de reeducação postural global semanalmente. Tenho enorme consciência da importância de se manter uma boa postura para não sofrer lesões musculares, dores e atrofiações. E quando você é contratado por uma empresa de grande porte, passa por todos aqueles exames médicos, ouve conselhos de profissionais da saúde, vê cartilhas por todos os cantos e pensa que está em um ambiente em que todos são conscientes e responsáveis como você. Mas não. Tudo o que interessa aos meus chefes, são metas e metas.
Vamos falar de saúde mental? Quem é que consegue ser feliz trabalhando feito louco por doze horas diárias, minha gente? O povo ainda não acredita que estresse é coisa séria. Tem gente que se vangloria por trabalhar demais. Já vi colega dizer que se fizesse intervalo de duas horas pro almoço, começaria a tremer de agonia e vontade de voltar ao trabalho. Não tenho paciência. E o tempo para a família, para os amigos, para a vida afetiva, como fica? Parece até que meus chefes não dão importância a esse tipo de coisa, mas acho que não é isso. Acho que pensam que já conquistaram tudo o que tinham para conquistar nessas áreas e que agora só lhes resta se dedicar ao trabalho, pois o resto está garantido. Não lhes passa pela cabeça a possibilidade de um dia perderem o que já foi conquistado. Bom, problema deles. Mas eu ainda sou solteiro, gosto de namorar, de fazer amigos todos os dias, gosto de festa, barzinho, balada e gosto de ficar em casa também. Gosto de almoçar com meus pais, de assistir televisão, de brincar com o meu cachorro, de visitar meus avós e de encontrar os meus primos. E a vida não faria sentido pra mim se eu ganhasse todo o dinheiro do mundo e não tivesse tempo para desfrutar desses prazeres.
Às vezes me sinto um alien por não estar disposto a dar tudo de mim pelo meu emprego. Não aguento os discursos motivacionais dos meus superiores, que se despedem em suas mensagens de e-mail dizendo "bons negócios". Fico com a impressão de que estou no lugar errado e que nunca posso deixar que ninguém ali descubra a verdade sobre mim: que estou cagando e andando para aquele lugar. Que só quero o meu dinheiro no fim do mês para poder curtir o que a vida me oferece fora dali. Isso significa que eu não sou merecedor? Alto lá!!! Em nenhum momento eu afirmei que deixo de ser competente por não gostar realmente daquilo. Aliás, como já falei, não é nem que eu não goste. Existem algumas coisas no meu trabalho que me dão, sim, muito prazer! Mas são questões pouco valorizadas pela empresa. Ou melhor, altamente valorizadas na teoria, mas ridicularizadas na prática.
Do que estou falando? Das minhas utopias de sempre. Do meu romantismo. Gosto de atender bem meus clientes, de ajudar no que for possível, de fazer com que eles saiam dali satisfeitos e o menos irritados possível com toda aquela burocracia. Gosto de quando eles me reconhecem ao voltar ali e me cumprimentam com sorriso. Meus chefes não vêem quando isso acontece e não faz diferença pra eles. Pois trabalho em um departamento que não gera lucros, apenas cumpre com uma obrigação social da empresa. E pra piorar, já fui até criticado por colegas numa situação em que fiz algo além da minha obrigação só para ajudar alguém que precisava.
Mas enfim, já estou falando demais. E o tempo é curto, infelizmente. Mas gostaria de concluir dizendo que não tem sido fácil (kátia cega returns) viver num ambiente em que meus ideais são tão diferentes dos da maioria. Mas eu vou continuar sendo forte. Financeiramente, estou numa fase boa. No natal, comprei presentes para todo mundo lá de casa, pela primeira vez. Morar sozinho tem sido tranquilo e eu dou conta de todas as despesas. No final do mês, consigo ainda guardar um pouco de dinheiro na poupança e em breve espero poder viajar pelo exterior, pelo interior, conhecer culturas, lugares, pessoas, trocar experiencias, viver grandes amores, voltar para casa, lançar um livro e estudar antropologia. Não necessariamente nessa ordem.
Eu não falei? Sou cheio de utopias.
4 comentários:
Mas você não estava namorando. Já tá solteiro? Nem escreveu muito sobre isso.
Você já deve ter ouvido falar em Danuza Leão. Ela tem uma coluna - ótima - na Folha e em uma das últimas, ela escreveu que o maior luxo da vida, não é ter milhões na conta bancária ou qualquer coisa relacionada ao dinheiro e sim ter o que você citou no post, saúde.
E concordo com você, acho muito mais válido levar uma vida com a qual podemos desfrutar dos "pequenos prazeres" da vida, a levar uma vida para "outros".
Respondendo ao anonimo, ainda estou namorando sim e muito feliz! Mas neste texto resolvi falar de outra coisa, pra variar um pouco. E também porque precisava desabafar.
Acho que não ficou muito claro, mas a razão de eu ter escrito esse texto é que tenho sentido que meus novos chefes esperam de mim uma postura que não estou disposto a adotar. Eu não sou um homem de negócios, mas ainda quero trabalhar ali. =/
Pablo, sempre bom te ver por aqui! Só conheço a Danuza Leão de nome, mas vou ver se encontro algo dela na net.
Fica de boa, não caia nessa, a tranquilidade e o bom atendimento que vc passa para as pessoas é bem mais importante. Seus chefes te tratam assim porque foram ensinados a serem dessa forma e tem aquela etica de motivação somente lucrativa financeiramente. Os tempos são outros. É muito bom poder ver que vc esta escrevendo de novo!!! Sorte a minha de entrar aqui e ver esse texto tão bem escrito! Força ai, os que pensam diferente é que movem o mundo. E ah! Adorei essa de lançar um livro! Lança mesmo!!! kkkkk Beijos e tranquilidade ai.
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