Três bichas velhas brisavam sobre os sofás da sala. Na verdade uma delas estava sentada numa cadeira. E na verdade elas nem eram tão velhas assim. Kako, de 35 anos, o dono da casa, estava deitado no sofá da esquerda, sob a janela. No sofá do meio, ao fundo, na horizontal, estava Renato, 30 anos, deitado com sua bolsinha verde em cima da barriga. No lado direito, na cadeira, estava Fabiano, de trinta e tantos, não se sabe ao certo. No meio da sala, sentado no tapete, estava o pequeno mancebo, sobrinho de Kako, desenhando numa folha de papel.
Na vitrola, Edith Piaf. Renato se lembrava do momento em que chegou à boca de fumo e o moleque saiu correndo, pensando que ele fosse policial. Dava risadas sozinho. Depois olhou para o teto e comentou que aquilo parecia a época em que ele morava no Parque das Laranjeiras, quando estudava de manhã e tinha a tarde livre para fazer o que quisesse, inclusive ficar à toa na casa dos seus amigos. Afinal era uma plena quarta-feira e o sol ainda ardia lá fora.
De repente, Kako começou a dar uma risada como quem acabara de ver algo surpreendente, como se não pudesse acreditar no que via e, entre risos, comentou:
- Meu amor, você se pintou todo!!!
Então os outros dois veados olharam para o menino sentado no meio do tapete, que havia riscado todo seu corpo, até o rosto, com canetinha. Todos ficaram rindo, então Fabiano comentou:
- Nossa, isso aqui tá parecendo uma cena de Almodóvar, né? Com essa música ao fundo, a gente louco e o menino todo rabiscado no meio.
Renato deu risadas e resolveu procurar seu celular para ver as horas, esquecendo-se de que era o celular que fazia as vezes de vitrola e estava no outro sofá. Sendo assim, ele futricou em sua bolsinha verde e teve uma terrível surpresa ao ver o que havia ali dentro: vários tabletes de maconha prensada. Uma quantidade enorme, ele poderia ser preso por aquilo. Desesperado, porém contido, ele arregalou os olhos e a boca e se certificou de que ninguém mais havia visto aquilo. Tentou esconder a bolsa enquanto se perguntava quem havia colocado toda aquela droga ali, com certeza na intenção de incriminá-lo. "Só pode ter sido a Branca!", pensou consigo mesmo.
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