Há algo de muito sinistro por aqui! Talvez seja o cansaço de fim de ano, mas o fato é que eu penso em coisas legais para escrever, mas simplesmente não consigo organizar as ideias em palavras... Será que sou hiperativo??
Enfim, gostaria de fazer alguns devaneios e aprofundamentos sobre um determinado assunto, mas já que tenho dificuldade, vou direto ao ponto! O que quero lhes contar é que, nos últimos meses, tomei uma decisão importante na minha vida: apresentei meu namorado à minha família. Não formalmente e sem dizer explicitamente que ele é meu namorado, mas passei a simplesmente levá-lo comigo a festas de família. Como apresento? "Este é o Ricardo". Não preciso dizer o que ele é meu, mas já ficou óbvio.
Como todos reagiram? Com a maior naturalidade do mundo. Nenhum olhar de espanto, nenhuma reprovação, nada... Inclusive meus pais o cumprimentam com sorriso no rosto. Minha mãe por muitos anos se mostrou extremamente preconceituosa quanto a este tema, mas hoje é super mente aberta... E o meu pai nunca se pronunciou, mas sei que tem o maior respeito.
O motivo de eu ter tomado esta decisão é que, de repente, me deu vontade de me aproximar da família, principalmente dos meus primos. Se alguém me dissesse, há um ano atrás, que um dia eu pensaria assim, eu jamais acreditaria. O fato é que, com uma mãe preconceituosa e castradora e um pai distante que não se pronunciava, eu sempre tive medo de manifestar qualquer ideia ou comportamento que me mostrasse como alguém diferente dos padrões de filho ideal. E tendo meus pais como referência de seres humanos, eu logicamente acreditava que todas as pessoas do mundo (inclusive tios e primos) pensariam e agiriam igual a eles (Freud explica). Portanto, eu não tinha ninguém a quem recorrer para falar sobre minhas fraquezas e dificuldades. Achava que eu não podia tê-las! Se eu não conseguia fazer amigos na escola, se eu sofria chacota, se tinha dificuldades de aprendizado, vontade de fazer teatro, se não sabia dar nó em gravata ou se era rejeitado pelo garoto de quem eu gostava, tudo isso eu guardava pra mim.
Quando fui chegando à maturidade, descobri que o mundo não era só aquilo e que nem todas as pessoas reprovariam o meu comportamento. Um dia saí na rua e conheci gente que me acolheu e me aceitou, mesmo que eu fosse gay, mesmo que eu fosse rebelde, mesmo que eu não fosse católico e mesmo que eu não quisesse mais ser publicitário. Por exemplo. Então passei a me aceitar melhor e a acreditar que aquilo que eu era não estava errado, mas minha família, sim. Percebi que, além de gay, eu também sou bonito, inteligente e tenho um humor afiadíssimo que é o que considero minha maior qualidade! E quem não fosse capaz de aceitar o pacote completo, não mereceria desfrutar de nenhuma parte.
A partir daí, comecei a viver duas personalidades. Na rua, na faculdade, no trabalho, com amigos, eu era o Renato, divertido, assumido e despreocupado. Em ocasiões familiares, porém, eu me distanciava e me fechava, pois acreditava que ninguém ali gostaria de conhecer meu verdadeiro eu. Além disso, comecei a sentir desprezo por aquelas pessoas que diziam me amar e que, porém, ignoraram os problemas que enfrentei ao longo da vida e toda a dor que eu senti. Aliás, comecei a observar meus tios e primos e acreditar que eles nem sequer deviam saber o que realmente significam essas palavras: sofrimento e dor. Pareciam todos tão alienados e aparentemente felizes com suas vidas dentro dos padrões. Tudo parecia tão superficial e eu já não queria me misturar ou me encaixar. Melhor ser eu.
Algum tempo depois, entretanto (há pouquíssimo tempo, na verdade), percebi que essa minha visão podia estar deturpada. Me dei conta da transferência que eu fiz do modo agir e pensar da minha mãe (condenador) para toda a família dela. Ela, sim, errou - e eu já perdoei, após quatro anos de psicoterapia - mas talvez meus tios e primos não fossem tão caretas quanto eu pensava. Ou pelo menos uma boa parte deles.
Em junho deste ano, então, aconteceu a grande virada. Fui aprovado em primeiro lugar num concurso público e senti que eu já não devia mais nada a ninguém. Conquistar um cargo estável em um órgão do governo foi como conquistar um espaço genuinamente meu, que todos são obrigados a reconhecer e ninguém pode me condenar. Agora eu faço parte do mundo e posso ser quem eu quiser.
Dois dias depois do resultado do concurso sair, fui ao casamento de um primo meu, onde toda a família me deu os parabéns pela minha conquista. Nessa noite, conheci o Ricardo. Coincidentemente, ele era amigo da noiva e também da namorada de outro primo meu, além de morar no mesmo prédio que minha tia. Então ele tinha boas referências e ainda era super gatinho. Não que eu fosse ficar com o garoto só para me aproveitar dessas ligações e utilizá-lo como ponte para me aproximar desses primos. Mas eu pensava nisso também. Quero dizer, tornou toda a experiência ainda mais interessante. Sem falar que se o namorado que eu apresentasse à família já fosse conhecido de alguns, os outros provavelmente o aceitariam com mais facilidade.
Quando me envolvi com o Ricardo, é claro que me apaixonei. Vocês acompanharam isso. Quando ele pediu um tempo, por exemplo, eu sofri muito! Mas também lamentei por não ter tido tempo de ao menos usá-lo para me assumir para a família. E em momentos de crise, quando estávamos juntos, e eu pensava em terminar por causa de sua falta de atenção e suas grosserias, pensar nesse benefício que o relacionamento poderia me oferecer me animava para aguentar mais um pouco. Depois as coisas melhoravam.
Agora eu poderia dizer que estamos bem. Anteontem mesmo, sábado, eu o levei à festa de aniversário do marido da minha prima. Tivemos um dia ótimo, mas na hora de embora ele resolveu me surpreender. Tivemos uma briga que me deixou muito mal... E desde então eu tenho a sensação de que ele está pensando em terminar. Fiquei triste, ciente de que não quero isso... Depois pensei que talvez eu já esteja preparado, depois de tantos ensaios de término. Agora, depois de escrever esse texto, eu vejo que pelo menos já consegui uma das coisas que eu mais queria. E se o Ricardo me deixar, eu tenho minha família, que vem me conhecendo melhor e me aceitando como eu sou. Não estou sozinho.
E não é que eu escrevi bastante!?
6 comentários:
Se não tivesse chorado demais ontem, iria agora, mas ta bom, me emocionei sem chorar, o que alias não vai acontecer nos seus textos pq: "... mesmo que eu fosse rebelde, mesmo que eu não fosse católico e mesmo que eu não quisesse mais ser publicitário" !!!!!!!!! kkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkkk huahuahuahuahuahua. Sempre acontece de eu estar rindo aqui. "Percebi que, além de gay, eu também sou bonito, inteligente e tenho um humor afiadíssimo que é o que considero minha maior qualidade!" Demorô pra ver isso hein?? Agora, você pode ter certeza de que eu o admiro muito por ter perdoado sua mãe castradora e ter se saido bem disso, eu tb tenho uma assim, mas que ta melhorando com o tempo,perdoar e muito bom mas e dificil, é perfeito você ter conseguido. Você é forte e muito talentoso, acho que seu sucesso tá só no começo. Quero ser você quando crescer!!!!
Beijos e Feliz Natal.
Oi Re
vc escreve muito bem(acho que ja disse isso)...Fiquei feliz que vc apresentou o Ricardo para a sua familia...Ela(sua mãe) deve ter ficado feliz, pq mãe sempre sabe de tudo sem o filho precisar de falar...Eu gosto qdo vc posta, mas se não tem post é pq vc ta feliz com o seu amor, então prefiro sem post
Feliz Natal e um 2011 de muita paz com o seu amor!!!bj Gema
Como disse no twitter, dos textos publicados aqui, este foi com qual mais me identifiquei.
Adimiro muito quem consegue tomar atitudes como as que você tomou.É encorajador, já que eu, não sei se consigo - pelo menos por enquanto - mostrar o meu verdadeiro eu.Sempre digo para algumas pessoas que o Pablo que elas conhecem, não é nem metade do Pablo que eu realmente conheço.Adoraria agir, viver e falar tudo o que me vem em mente, sem medo de ser taxado, rotulado ou outra coisa parecida.
Enquanto isso não acontece, continuo me deliciando com os seus brilhantes textos.
Ah, eu já estava entrando em crise de abstinência, rsrsrsrs.Ok, é mentira.
Renato,
Corajoso e sincero o texto!
Acho que nunca estamos sozinhos.
Mas com família, se integrados, nunca nos SENTIREMOS sozinhos.
Parte com amor!
Oi Re, te falei que assim que pegasse o meu notebook eu daria uma passada por aqui, (dito e feito rsrs).
Primeiramente você pode se considerar um grande vencedor, pois além de conseguir perdoar a sua mãe, passar em primeiro lugar no concurso e de ter amigos ótimos, você tem um namorado. Digo isto porque eu mesmo demorei muito a me aceitar e a partir disto namorar acho que não conseguiria, pois a minha família é muito parecida com a sua mãe, se não pior (não somente pais e irmãos, inclui-se tias(os) e primos(as)).
Me assumir para a família seria um desastre, para falar a verdade eu sou assumido para pouquissimas pessoas (leia-se a somente no para as pessoas no twitter e para a minha ex-psicóloga). Eu tenho dois perfis no twitter: naquele que te sigo posso ser eu mesmo, mas tenho um perfil hétero, onde sou aquele que as pessoas pensam que conhecem. O engraçado que eu sempre digo isso para a minha mãe: vc pensa que me conhece mas nem sabe 1/3 da minha vida, uma vez ela pediu para eu explicar,mas não o fiz.
Muitas coisas eu me identifico com voce, principalmente na parte de guardar as coisas para mim mesmo, faço até hoje e já pensei criar um blog para pelo menos não ficar remoendo as coisas, assim poderei escrever, esquecer e depois analisar o que fiz e tals, mas tenho preguiça, tenho que admitir e também escrevo muito mal e desconexo, não consigo concluir uma linha de raciocínio, vc já deve ter percebido né? rsrsrs
Resumindo:você é um exemplo de ser humano a ser seguido, devido a sua garra, inteligência, paciência e superação, coisas que ainda tenho que aprender...
entendo bem o que vc passou com sua family! bjs
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